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A três meses de completar 70 anos, Luiz Felipe Scolari deu um aviso direto aos conselheiros palmeirenses. Principalmente aqueles que estão sob o domínio do ex-presidente Mustafá Contursi.

Se houver queixas, reclamações, qualquer tentativa de sabotagem interna ao seu trabalho, ele virará as costas e vai embora do Palestra Itália. Sem olhar para trás.

Assim como se um candidato para presidente apoiado por Mustafá vencer. Ele vai embora no dia seguinte. Não quer passar pelas agruras nas suas duas primeiras visitas ao Palestra Itália.

Esse aviso não foi cifrado.

O treinador foi direto com o presidente Mauricio Galiotte.

Desejava deixar o Palmeiras livre para dispensá-lo se não estiver satisfeito com seu trabalho. Porém, muito mais importante: exigia estar solto para ir embora imediatamente, caso não se sentir à vontade. Estiver insatisfeito.

Scolari conhece muito bem as entranhas do clube. Oswaldo Brandão e suas 580 partidas é o primeiro na história. Felipão já já é o segundo, com 408 jogos, nas duas passagens anteriores, que o marcaram muito.

Sabe como é cruel ter os conselheiros se posicionando contra ele. Na primeira vez foi entre 1997 e 2000. Foram os milhões de dólares despejados pela Parmalat no clube. Foi quando o Palmeiras venceu sua primeira e única Libertadores, em 1999. Felipão até queria prosseguir no cargo, mas o então presidente Mustafá Contursi resolveu exagerar na sua visão que ainda tem sobre o futebol.

A do ‘bom e barato’.

O resultado foi o enfraquecimento absurdo do elenco. E o dirigente enfrentando Scolari pela imprensa. O treinador não cansava de pedir reforços. Os conselheiros, comandados por Mustafá, insistiam que o elenco seguia forte. E que Felipão estava ‘mal acostumado’. Tudo acabou em 2000, depois da semifinal histórica contra o Corinthians, o time perdeu o título na decisão contra o Boca Juniors, no Morumbi, na decisão por pênaltis.

O treinador saiu demitido. Conselheiros ligados a Mustafá disseram que ele embolsou uma ‘gorda’ multa contratual na época. Foi para o Cruzeiro e de lá para a Seleção.

Em 2010, voltou ao Palmeiras. E tratou de amarrar seu contrato uma grande multa rescisória. Se fosse dispensado, receberia até o final do seu vínculo com o clube. Se quisesse sair, teria de ressarcir a equipe.

Foi o inimigo número um de Mustafá, Luiz Gonzaga Belluzzo, quem o contratou. Só que o afilhado político de Mustafá, Arnaldo Tirone, sucedeu Belluzzo. E tudo ficou ruim para o treinador. Por influência política do ex-presidente, voltou a política do ‘bom e barato’, que era contrária ao que Scolari trabalhava. Logo o elenco ficou infestado de atletas fracos tecnicamente.

Scolari apostou todas as fichas na conquista da Copa do Brasil. E a conquistou de forma invicta, em 2012. Depois de 12 anos, o Palmeiras voltava a ser campeão de uma disputa nacional. Só que Felipão comprometeu o Brasileiro, priorizando a Copa do Brasil. E encaminhou o clube ao segundo rebaixamento de sua história.

Antes de se concretizar, foi demitido.

E embolsou toda a multa, que teria chegado perto de R$ 20 milhões, de acordo com jornais da época.

Neste terceiro retorno, Scolari aprendeu.

Ele sabe que o Palmeiras está dividido politicamente. Mustafá rompeu com Galiotte e Leila Pereira, dona da Crefisa. E, com seus eternos aliados, segue trabalhando contra a atual diretoria. Por sua influência, o COF não aprovou as contas do clube em janeiro, fevereiro e março. Por conta das doações de Leila terem virado empréstimo.

Felipão sabe que haverá eleição no último trimestre do ano, como prevê o estatuto. Genaro Marino, primeiro vice, que é rompido com Galiotte e até o ex-presidente Paulo Nobre. Um dos dois concorrerá contra a reeleição do atual presidente.

Scolari tem contrato até dezembro de 2020. Mas sabe que, se um candidato apoiado por Mustafá vencer, sua vida poderá virar um inferno. E ele não quer isso. Já bastaram as suas duas saídas do clube.

Por isso impôs a multa de apenas um salário para ir embora ou ser demitido do Palmeiras.

Se o candidato de Mustafá vencer Galiotte no pleito ainda este ano, no dia seguinte, o treinador deverá ir embora do clube.

Simples assim.

Com sua vida financeira resolvida há muito tempo, Luiz Felipe quer trabalhar em paz e se sentir bem no Palestra Itália. E sua inimizade com Mustafá é histórica. Ambos têm o gênio forte e são rancorosos.

Por isso, a história de dois anos e quatro meses de contrato, pode ser muito mais curta do que está sendo divulgada.

Até porque, como confirmam conselheiros ligados a Mustafá, Felipão será o treinador mais bem pago do país. Receberá mais até do que Tite na Seleção Brasileira para comandar o Palmeiras.

Não custará nada dar um mês de seu salário e ir embora do Palestra Itália.

Ou receber esse salário a mais e partir, caso o oponente de Galiotte vença e não deseje esperar pela vontade do técnico.

A situação é fácil de ser compreendida.

Se Galiotte perder a reeleição para um aliado de Mustafá, deixará o Palmeiras.

Sem olhar para trás…

Fonte: Blog do Cosme Rimoli